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Estúdio Paulosoft
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conexão entre paulo e vitória
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Capítulo 1
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# CAPÍTULO 1 — PRÓLOGO ## CENA 1 — A vida de Paulo Gardinalli O som das teclas sob os dedos de Paulo Gardinalli ecoava pelo escritório amplo da cobertura que ele chamava de lar. Trinta anos, deficiente visual desde o nascimento, Paulo havia transformado sua limitação em algo que poucos conseguiam compreender: uma vantagem no mundo dos agentes inteligentes. — Pronto, equipe — murmurou para si mesmo, enquanto o leitor de tela confirmava o deploy do último conjunto de agentes que havia desenvolvido. — Vocês têm três meses de trabalho pela frente. Façam em uma semana. A satisfação em sua voz era genuína. Paulo não apenas trabalhava com inteligência artificial; ele orquestrava verdadeiras sinfonias de agentes que se comunicavam, aprendiam e executavam tarefas complexas com uma eficiência que impressionava até os céticos mais ferrenhos da SouzaTech. SouzaTech. O nome ainda trazia um sorriso ao seu rosto quando pensava em como tudo havia mudado há exatamente um ano. Lucélia parecia tão distante agora. A pequena cidade no interior de São Paulo onde havia crescido, onde perdera seus pais quinze anos atrás naquele acidente que ainda doía quando permitia que as memórias viessem à superfície. Lucélia, onde trabalhara em uma empresa que fechara as portas da noite para o dia, deixando-o sem rumo, sem perspectivas. Mas então veio o anúncio. SouzaTech procura especialista em agentes inteligentes. Paulo ainda se lembrava da tremedeira em suas mãos ao enviar o currículo. Emily Souza e Marcelo Marques eram lendas no mundo empresarial brasileiro — ela com apenas vinte e dois anos, bilionária, implacável nos negócios. Ele, seu sócio e marido, igualmente jovem e temido pela rigidez com que conduzia as operações do império que haviam construído juntos. Por que diabos contratariam um deficiente visual do interior? Mas contrataram. E não apenas contrataram — acolheram. O telefone tocou, e Paulo atendeu pelo viva-voz. — Paulo! — A voz animada de Emily Souza preencheu o ambiente. — Acabei de ver o relatório dos agentes que você deployou ontem. Três clientes novos fechados esta manhã por causa da análise preditiva que sua equipe gerou. Você é um gênio, sabe disso? Paulo sentiu o calor subir pelo rosto. Mesmo após um ano, os elogios de Emily ainda o deixavam sem jeito. — Eu só... configurei os parâmetros certos, Emily. Os agentes fizeram o trabalho pesado. — Não seja modesto. — A voz de Marcelo entrou na ligação. — Paulo, você transformou esta empresa. Antes de você, levávamos meses para fazer análises que agora acontecem em dias. Você é o executivo mais valioso que temos. Executivo mais valioso. As palavras ainda soavam estranhas aos seus ouvidos. Paulo Gardinalli, o garoto de Lucélia que havia perdido tudo, agora morava em uma cobertura em São Paulo, ganhava mais dinheiro em um mês do que muitos veriam em anos, tinha um motorista particular esperando-o sempre que precisasse, e viajava em jatos particulares — algo que Emily havia não apenas permitido, mas insistido. "Um executivo do seu calibre não deveria estar espremido em voos comerciais, Paulo. Use o jato da empresa sempre que precisar. É uma ordem." E ele usava. Não por ostentação, mas porque Emily estava certa — era mais eficiente, mais prático, e francamente, mais confortável para alguém que navegava o mundo através de sons, texturas e a bengala que o acompanhava fielmente. — Vocês me dão crédito demais — Paulo respondeu, mas sua voz carregava afeto genuíno. Emily e Marcelo não eram apenas seus chefes. Eram seus amigos. Seus melhores amigos, na verdade. Como naquela vez, seis meses atrás, quando quase perderam tudo por causa de uma foto manipulada. Um ex-namorado de Emily, movido por ciúmes e vingança, havia usado inteligência artificial para colocar Marcelo em uma imagem comprometedora com outra mulher. A foto chegara a Emily, e o estrago fora imediato. Mas Paulo desconfiara. Algo na história não se encaixava. E então ele fizera o que fazia de melhor — soltara seus agentes para investigar. Metadados, padrões de manipulação digital, rastros na internet. Em quarenta e oito horas, o farsante estava desmascarado, e o casamento de Emily e Marcelo, salvo. Desde então, eles o tratavam como um irmão. — Paulo, você vem jantar hoje? — Emily perguntou. — Estou testando uma receita nova e preciso de cobaias. Paulo riu. — Claro. Que horas? — Oito. E traga apetite. Quando desligaram, Paulo recostou-se na cadeira ergonômica que custara mais do que seu primeiro carro. Sua vida profissional era um sucesso absoluto. Sua equipe na SouzaTech o adorava — ele era exigente, sim, mas justo, carinhoso, sempre disposto a ensinar e ouvir. Publicava artigos em blogs especializados que eram lidos e comentados por profissionais do mundo todo. Tinha estabilidade financeira que jamais sonhara possível. Mas quando a noite chegava, e ele voltava para a cobertura silenciosa, apenas o som de seus próprios passos ecoando pelo piso de mármore, uma solidão profunda o abraçava. Mulheres. Paulo suspirou, sentindo o aperto familiar no peito. Ele era patético com mulheres. Completamente, irremediavelmente patético. A timidez que conseguia controlar em reuniões de negócios, em apresentações para clientes, em conversas com sua equipe — tudo isso desmoronava quando estava diante de uma mulher que lhe interessava. E o que ele queria parecia impossível de encontrar. Paulo não queria alguém delicado, que o tratasse como frágil. Não queria piedade disfarçada de afeto. Ele queria intensidade. Queria ser possuído, desejado com uma ferocidade que deixasse claro que era insubstituível. Queria alguém que o quisesse tanto que não o dividisse com nada nem ninguém. Mas como encontrar isso quando mal conseguia iniciar uma conversa? Seu celular vibrou. Uma mensagem de Marcelo. "Cara, você precisa relaxar. Quando foi a última vez que você fez algo só por diversão? Esquece trabalho por um dia. Vai jogar videogame, sei lá. Viver um pouco." Paulo sorriu. Marcelo era um gamer assumido, e vivia tentando converter Paulo ao mundo dos jogos. O problema era que a maioria dos jogos simplesmente não funcionava para ele. Visuais deslumbrantes não significavam nada quando você não podia vê-los. Mas talvez... talvez Marcelo tivesse razão. Talvez fosse hora de tentar algo diferente. Paulo abriu o Steam em seu computador, o leitor de tela narrando as opções. Começou a explorar, procurando por jogos que pudessem ter algum nível de acessibilidade. A frustração veio rápido. Jogo após jogo, a mesma história — interfaces visuais, tutoriais que dependiam de ver, mecânicas que exigiam enxergar. Até que um nome chamou sua atenção. Vitória Oliveira. Havia algo no nome. Algo que ressoava. Paulo não saberia explicar por quê, mas seus dedos já estavam baixando o primeiro jogo listado sob aquele nome. Quando o jogo iniciou, Paulo preparou-se para a decepção familiar. Mas então... — Bem-vindo — uma voz feminina suave disse, clara e direta. — Este jogo foi desenvolvido pensando em você. Vamos começar? E começou. Cada ação tinha um retorno sonoro distinto. Cada escolha era narrada com clareza. Cada mecânica fora pensada, cuidadosamente elaborada para funcionar sem depender da visão. O jogo não era apenas jogável — era imersivo, emocionante, desafiador. Paulo jogou por uma hora. Depois duas. Quando finalmente pausou, havia lágrimas escorrendo por seu rosto. Alguém havia feito aquilo. Alguém havia se importado o suficiente para criar algo que o incluísse completamente. Não como uma adaptação de última hora, mas como parte fundamental do design. Com as mãos tremendo, Paulo abriu a seção de comentários e começou a digitar. Não mediu palavras. Colocou toda a emoção que sentia, toda a gratidão, todo o impacto que aquele simples ato de inclusão havia causado nele. Falou sobre a frustração de ser excluído, sobre a alegria de finalmente ser visto, sobre como aquele jogo era mais do que entretenimento — era dignidade. Quando terminou de escrever e publicou o comentário, Paulo sentiu algo que não sentia há muito tempo. Esperança. Em algum lugar, existia alguém que entendia. Alguém que se importava. E ele nem imaginava que essa pessoa estava prestes a mudar sua vida para sempre.
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