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Capítulo 1
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# CENA 3 — A indicação de Roberto Paulo estava sentado na varanda de sua casa em Lucélia, o notebook aberto sobre a mesa, quando o telefone tocou. Era Roberto. — Paulo, tudo bem? — a voz do guia turístico soava animada, quase urgente. — Oi, Roberto. Tudo sim, e você? — Cara, preciso falar com você. Soube que você saiu da Caixa. Paulo suspirou, ajeitando-se na cadeira. A notícia já havia se espalhado, aparentemente. — É verdade. Corte de custos. Não tem muito o que fazer. — Olha, eu sei que você tem sua renda extra e tal, mas também sei que você não gosta de ficar parado — Roberto fez uma pausa. — Tenho uma indicação pra você. Uma empresa aqui em São Paulo. Grande. Muito grande, na verdade. — Empresa grande? — Paulo franziu a testa. — Que tipo de empresa? — Tecnologia. A SouzaTech. Já ouviu falar? Paulo havia ouvido sim. Quem trabalhava com tecnologia no Brasil conhecia a SouzaTech. Era um império construído por uma jovem empresária que, segundo os rumores, era tão brilhante quanto inflexível. — Já ouvi falar, sim. Mas Roberto, por que você acha que eles se interessariam por mim? — Porque eu vou te indicar pessoalmente — a voz de Roberto ganhou um tom mais sério. — Paulo, você se lembra quando minha mãe ficou doente? Quando você conseguiu aquele atendimento no Sírio Libanês pra ela? — Roberto, eu só fiz algumas ligações... — Você salvou a vida da minha mãe, cara. Ela não teria conseguido aquele atendimento imediato se não fosse por você. Eu nunca esqueci isso. Agora é minha vez de retribuir. Paulo sentiu um aperto no peito. Ele não havia feito aquilo esperando retribuição. Apenas ajudara um amigo. — Eu não sei, Roberto. Teria que me mudar pra São Paulo... — E qual o problema? Você viaja o Brasil inteiro, conhece mais lugares do que eu que sou guia turístico! — Roberto riu. — Além disso, a empresa está procurando especialistas em agentes inteligentes. E você, meu amigo, é uma lenda nessa área. — Lenda é exagero... — Paulo, para de ser modesto. Eu leio seus artigos. Meio Brasil que trabalha com tecnologia lê seus artigos. Você desenvolveu sistemas que fazem em dias o que levaria meses. A SouzaTech precisa de alguém como você. Paulo ficou em silêncio, processando a informação. Mudar para São Paulo seria uma grande mudança. Mas Roberto tinha razão — ele não queria ficar parado. O trabalho sempre fora importante para ele, não apenas pelo dinheiro, mas pelo propósito. — Você conhece alguém lá dentro? — perguntou Paulo, finalmente. — Conheço o diretor de desenvolvimento de soluções de agentes inteligentes. Rogério Silva. Um cara excepcional. Já falei de você pra ele, e ele ficou muito interessado. Quer te conhecer. — E a dona da empresa? Emily Souza, não é? Ouvi dizer que ela é... complicada. Roberto hesitou por um segundo. — Ela é exigente, sim. Muito exigente. Mas é justa. E olha, Paulo, ela não vai se importar com sua deficiência visual. A empresa tem políticas sérias de inclusão. Já tiveram outros funcionários com deficiência visual, e de acordo com o Rogério, foram excelentes profissionais. Paulo tamborilou os dedos na mesa, pensativo. Sua mãe, Maria, sempre o incentivara a ser independente, a não ter medo de novos desafios. Ela ficaria orgulhosa se ele aceitasse essa oportunidade. — O que eu preciso fazer? — Manda seu currículo que eu encaminho pro Rogério. Ele vai fazer uma entrevista técnica com você. Se ele aprovar, vai pra Emily dar a assinatura final. Mas Paulo, o Rogério é quem manda tecnicamente. Se ele te aprovar, é porque você realmente é bom. — Tá bom. Vou preparar o currículo e te mando ainda hoje. — Perfeito! — Roberto soava genuinamente feliz. — Paulo, tenho um bom pressentimento sobre isso. Acho que vai dar muito certo. Depois que desligaram, Paulo ficou ali, sentindo a brisa da tarde. São Paulo. Uma nova cidade, um novo começo, uma nova empresa. A vida estava apresentando uma nova porta, e ele, apesar da insegurança natural que sempre carregava, sentia que precisava atravessá-la. Ele abriu o leitor de telas e começou a atualizar seu currículo. Listou suas experiências na Caixa, os projetos com agentes inteligentes, as publicações em blogs técnicos. Descreveu os sistemas que desenvolvera, as soluções que criara, as equipes virtuais de agentes que executavam tarefas complexas em tempo recorde. Quando terminou, já era noite. Paulo enviou o arquivo para Roberto com uma mensagem simples: "Obrigado pela oportunidade, amigo. Espero estar à altura." A resposta veio quase instantaneamente: "Você está mais do que à altura. Confie em mim." Paulo desligou o computador e foi para a cozinha preparar o jantar. Enquanto cozinhava, sua mente vagueava. Pensava em São Paulo, na SouzaTech, em Emily Souza. Imaginava como seria trabalhar em uma empresa daquele porte, com aquela reputação. Uma pequena ansiedade crescia em seu peito, mas também havia excitação. Paulo Gardinalli estava prestes a embarcar em uma nova jornada, sem saber que essa mudança transformaria sua vida de formas que ele jamais poderia imaginar. Sem saber que, em algum lugar de São Paulo, em uma cobertura luxuosa, uma jovem de vinte e dois anos estava sentada sozinha, olhando para a cidade iluminada, com o coração partido e uma armadura cada vez mais espessa ao redor de suas emoções. Sem saber que seus destinos estavam prestes a se entrelaçar de maneiras dolorosas, intensas e, quem sabe, transformadoras.
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