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# CENA 2 — A notícia que muda tudo O som da notificação de chamada ecoou pelo pequeno apartamento em Lucélia. Paulo ajustou o fone de ouvido e aceitou a videochamada, sabendo que André estava do outro lado. — Bom dia, Paulo — a voz do colega soou diferente, carregada de uma tensão que Paulo reconheceu imediatamente. — Bom dia, André. Tudo bem? Sua voz está estranha. Houve uma pausa. Paulo ouviu André respirar fundo. — Paulo, eu... preciso te contar uma coisa. E não é fácil. O coração de Paulo acelerou. Em seus quarenta e quatro anos, ele havia aprendido que frases assim nunca precediam boas notícias. — Pode falar. — A Caixa vai fazer cortes. Cortes significativos no orçamento. E... Paulo, você está na lista. O mundo pareceu parar por um instante. Paulo sentiu o peso das palavras se instalarem em seu peito como pedras. — Eu? Mas... o trabalho com os agentes inteligentes, os projetos que economizaram meses de trabalho... — Eu sei, Paulo. A gente sabe. Nathany está indignada, Diego também. A equipe toda está revoltada. Você é referência aqui. Mas a decisão veio de cima, e tem a ver com home office, reestruturação, essas coisas corporativas que nunca fazem sentido quando atingem as pessoas certas. Paulo passou a mão pelo rosto, tentando processar a informação. Seu apartamento, que momentos antes parecia acolhedor com os sons familiares da manhã, agora parecia pequeno demais, sufocante. — Quando? — Fim do mês. Vão te dar todo o suporte legal, a rescisão completa, mas... Paulo, eu sinto muito. De verdade. — Obrigado por me avisar, André. — A gente vai sentir sua falta. Você construiu algo incrível aqui. Os agentes que você desenvolveu vão continuar rodando, facilitando a vida de todo mundo. Seu legado fica. Depois que a chamada terminou, Paulo ficou sentado em silêncio. Seu leitor de telas estava aberto em um artigo que ele havia publicado na semana anterior sobre arquitetura de sistemas multiagentes. Os comentários eram entusiasmados, cheios de perguntas técnicas e elogios. E agora, nada daquilo importava. Ele se levantou e caminhou até a cozinha, seus passos automáticos pelo espaço que conhecia perfeitamente. Preparou um café, o aroma forte preenchendo o ambiente. Enquanto esperava a água ferver, pegou o celular e discou para sua mãe. — Paulo! Que surpresa boa, filho. Tudo bem? A voz de Maria era calorosa, sempre tinha sido. Mesmo depois de se casar novamente e construir uma nova vida, ela mantinha aquela conexão profunda com o filho. — Oi, mãe. Eu... recebi uma notícia hoje. — O que aconteceu? Paulo contou sobre a demissão, tentando manter a voz firme. Maria ouviu em silêncio, e ele podia imaginar a expressão preocupada dela. — Filho, sinto muito. Mas você sabe que tem capacidade para qualquer coisa. E você tem sua renda extra, não é? Você não vai ficar desamparado. — Eu sei, mãe. Mas não é sobre o dinheiro. É sobre... fazer parte de algo, sabe? Ter uma equipe, contribuir. — E você vai ter isso de novo. Paulo, você é brilhante. Qualquer empresa seria privilegiada em te ter. Depois de se despedir da mãe, Paulo ficou na varanda, sentindo a brisa da tarde. Lucélia era uma cidade tranquila, e ele gostava dali. Mas talvez fosse hora de uma mudança. Seu celular tocou novamente. Desta vez era Roberto, seu guia turístico de confiança em São Paulo. — Paulo! Como vai, meu amigo? — Oi, Roberto. Vai bem e você? — Tudo certo por aqui. Olha, estou te ligando porque soube de uma coisa que pode te interessar. Você ainda está na Caixa? Paulo hesitou. — Na verdade... acabei de saber que vou ser desligado. — Sério? Paulo, cara, que coincidência. Eu ia te falar sobre uma oportunidade. Tem uma empresa aqui em São Paulo, a SouzaTech. Você já ouviu falar? — SouzaTech... o nome me parece familiar. — É da Emily Souza. Ela tem vinte e dois anos e é uma das pessoas mais ricas do Brasil. Bilionária, Paulo. E a empresa dela está procurando especialistas em agentes inteligentes. Paulo sentiu uma pontada de interesse, apesar da confusão emocional do dia. — E por que você está me contando isso? — Porque eu te devo uma, Paulo. Você não esqueceu, né? Quando minha mãe ficou doente e você moveu céus e terras para conseguir que o Sírio-Libanês atendesse ela imediatamente? Você salvou a vida dela, cara. Os médicos disseram que se tivesse demorado mais uma semana... — Roberto, eu só fiz o que qualquer pessoa faria. — Não, Paulo. Você fez o que poucas pessoas fariam. E agora é minha vez de retribuir. Eu tenho contatos na SouzaTech. Posso te indicar pessoalmente. Mas tem um porém: você teria que se mudar para São Paulo. Paulo ficou em silêncio, considerando. São Paulo. A cidade grande, cheia de possibilidades e desafios. Ele conhecia bem a cidade das suas viagens, mas morar lá seria diferente. — Você acha que eu teria chances reais? — Paulo, com seu currículo? Com os artigos que você publica? Com a experiência que você tem? Cara, você seria um achado para qualquer empresa. E a Emily Souza pode ser jovem, mas ela reconhece talento. Deixa eu fazer essa ponte. O que você acha? Paulo respirou fundo. Às vezes, quando uma porta se fecha, outra se abre. Talvez fosse o momento de arriscar. — Tudo bem, Roberto. Pode fazer a indicação. — Ótimo! Vou ligar para o pessoal lá hoje mesmo. Paulo, tenho um bom pressentimento sobre isso. Quando a ligação terminou, Paulo voltou para dentro do apartamento. Sentou-se no sofá e deixou a realidade do dia finalmente afundá-lo. Mudança. Recomeço. Aos quarenta e quatro anos, ele estava prestes a virar uma página importante da sua vida. Ele não sabia ainda, mas aquela decisão mudaria tudo. Emily Souza era um nome que em breve significaria muito mais do que apenas uma oportunidade profissional. Por enquanto, porém, Paulo apenas respirou fundo e começou a planejar. São Paulo o esperava, e com ela, um futuro que ele ainda não podia imaginar.
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