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Capítulo 2
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# CENA 2 — Emily se desmorona Paulo seguiu Marina até o elevador privativo, seu coração martelando no peito. O som das portas se fechando ecoou como um presságio, e a subida silenciosa pareceu durar uma eternidade. Cada andar que passava aumentava sua ansiedade e seu arrependimento. — Ela está muito mal, Paulo — Marina disse baixinho, sua voz carregada de preocupação. — Nunca vi a Emily assim. Ela sempre foi forte, sempre conseguiu lidar com tudo sozinha, mas hoje... hoje ela se despedaçou. — Eu não deveria ter feito aquilo — Paulo murmurou, apertando a bengala entre os dedos. — Eu só queria... eu me senti tão rejeitado, tão humilhado quando ela me disse para ficar no meu lugar. — Eu sei — Marina suspirou. — E ela sabe que foi terrível com você. Mas Emily tem medo, Paulo. Muito medo de se machucar de novo. O elevador parou com um suave tinido. As portas se abriram diretamente para a cobertura. — Vou deixar vocês conversarem — Marina disse, tocando levemente o braço de Paulo. — A sala principal fica à esquerda. Boa sorte. Paulo ouviu as portas se fecharem atrás de si, deixando-o sozinho no amplo espaço. O silêncio era pesado, quebrado apenas pelo som abafado de soluços vindos de algum lugar à esquerda. Ele seguiu o som, seus passos cautelosos sobre o piso de madeira. A acústica do ambiente indicava um espaço grande e aberto, provavelmente com pé-direito alto. O cheiro sutil de lavanda pairava no ar. Os soluços ficaram mais altos. Paulo percebeu que vinha de um sofá próximo à janela, pelo eco diferente do som naquela direção. — Emily? — ele chamou suavemente. O choro cessou abruptamente, substituído por uma respiração ofegante. — Vá embora — a voz dela saiu rouca, quebrada. — Por favor, Paulo, vá embora. — Não vou — ele disse, caminhando na direção da voz. — Preciso conversar com você. — Não há nada para conversar — Emily fungou, e Paulo ouviu o som de papel sendo amassado, provavelmente um lenço. — Você deixou bem claro lá embaixo. Você... você e aquela mulher... A voz dela falhou novamente, e os soluços recomeçaram com força renovada. Paulo sentiu seu coração apertar. Ele se aproximou mais, até sentir a presença do sofá à sua frente. Lentamente, tateou até encontrar o espaço ao lado dela e se sentou. — Emily, eu preciso que você me escute — ele começou, sua voz firme mas gentil. — O que eu fiz lá embaixo foi cruel e infantil. Eu estava com raiva, magoado. Quando você me disse para ficar no meu lugar naquele dia, eu me senti... eu me senti menos que nada. — Eu sei — ela soluçou. — Eu fui horrível com você. Eu sou horrível. Você merecia me fazer sofrer. — Não — Paulo balançou a cabeça. — Ninguém merece sofrer assim. Eu vi... quer dizer, eu percebi como você ficou quando Aline começou a escrever comigo. Não era minha intenção te machucar tanto. — Mas você conseguiu — Emily disse, sua voz tremendo. — Porque eu não tinha direito de ficar magoada. Eu te rejeitei. Eu fui cruel. Eu disse coisas terríveis. E mesmo assim, quando vi você com ela, fazendo exatamente o que eu sabia que você queria fazer comigo... eu... eu... Ela não conseguiu terminar. Os soluços tomaram conta completamente, e Paulo sentiu o sofá tremer com a intensidade do choro dela. Sem pensar, ele estendeu os braços na direção dela. — Vem aqui — ele disse suavemente. — Não — Emily tentou se afastar. — Eu não mereço. Eu não mereço sua compaixão, Paulo. Eu sou uma pessoa horrível. Marcelo tinha razão. Ninguém consegue me aguentar. Eu sou intensa demais, possessiva demais, e agora... agora eu fui cruel com o único homem que... que... Sua voz se perdeu novamente. Paulo não esperou mais. Ele seguiu o som da voz dela e a puxou para seus braços. Emily resistiu por um breve momento, mas então se derreteu contra ele, enterrando o rosto em seu peito enquanto chorava como nunca havia chorado antes. — Me desculpa — ela soluçava entre os choros. — Me desculpa, me desculpa, me desculpa... — Eu te perdoo — Paulo murmurou, acariciando os cabelos dela. — E você também precisa me perdoar pelo que fiz hoje. — Não — Emily balançou a cabeça contra seu peito. — Você não fez nada de errado. Eu que... eu que estraguei tudo antes mesmo de começar. Eu tive medo. Muito medo. — Medo de quê? — De me machucar de novo — ela admitiu, sua voz abafada contra a camisa dele. — Quando Marcelo terminou comigo, ele disse... ele disse que homem nenhum jamais me aguentaria, que eu era impossível de amar, que minha intensidade afastava todo mundo. E quando eu vi você querendo escrever comigo naquela reunião, eu... eu quis tanto deixar você fazer isso. Mas tive medo. Medo de me apegar, medo de você descobrir como eu sou e me abandonar também. Paulo sentiu seu coração se apertar. Ele abraçou Emily com mais força. — Esse Marcelo é um idiota — ele disse com convicção. — Porque o que ele chamou de defeito é exatamente o que eu sempre procurei em alguém. Emily se afastou um pouco, ainda entre os braços dele. — O quê? — Eu sempre quis alguém intensa — Paulo explicou. — Alguém possessiva, que me quisesse de verdade, que não tivesse medo de demonstrar o que sente. Eu sou tímido, Emily. Extremamente tímido com mulheres. Mas com você... desde aquele dia na reunião, quando ouvi o som da sua caneta deslizando no papel, eu soube que queria fazer parte daquele momento. Queria entrelaçar meus dedos com os seus e sentir você escrevendo. — Eu sabia — Emily sussurrou. — Eu sabia o que você queria. Tive um funcionário deficiente visual que fazia isso com a namorada dele, a Júlia. Eles escreviam juntos o tempo todo. Era tão bonito de ver. E quando percebi que você queria o mesmo comigo, eu... eu entrei em pânico. — E me rejeitou da pior forma possível — Paulo completou, sem rancor na voz. — Eu sinto muito — Emily começou a chorar de novo. — Eu sinto tanto, Paulo. Você não merece alguém como eu. Você merece alguém gentil, alguém que não te machuque, alguém que... — Eu quero você — Paulo a interrompeu firmemente. — Com toda sua intensidade, toda sua possessividade. Eu quero você, Emily. Ela ficou em silêncio por um longo momento, apenas chorando baixinho contra o peito dele. — Eu não sei se consigo ser diferente do que sou — ela admitiu em voz baixa. — Eu sou muito intensa mesmo. Quando gosto de alguém, eu quero essa pessoa só para mim. Eu fico com ciúmes, eu fico possessiva, eu... — Eu sei — Paulo sorriu. — Vi isso hoje à noite. E sabe de uma coisa? Pela primeira vez na vida, alguém sentiu ciúmes de mim. Alguém se importou o suficiente para sofrer ao me ver com outra pessoa. Você não faz ideia de como isso é importante para mim. — Mesmo depois do que eu te fiz? — Mesmo depois — ele confirmou. — Porque agora eu entendo por que você fez. Você estava com medo. E eu também estou com medo, Emily. Tenho 44 anos e nunca tive um relacionamento sério. Sou inseguro, tímido, e sim, sou deficiente visual. Mas se você me der uma chance, se você deixar eu fazer parte da sua vida... — Eu quero — Emily o interrompeu, sua voz ainda trêmula mas mais firme. — Eu quero muito, Paulo. Mas e se eu te machucar de novo? E se minha intensidade for demais até para você? — Então a gente conversa — Paulo disse simplesmente. — A gente se ajusta, aprende um com o outro. Mas você precisa prometer uma coisa. — O quê? — Que vai ser você mesma. Não quero que você se reprima ou tente ser diferente. Eu quero a Emily intensa, possessiva e ciumenta. Porque é essa Emily que me fascinou desde o primeiro dia. Emily ficou em silêncio por um momento, e Paulo sentiu quando ela levantou a mão e tocou delicadamente seu rosto. Os dedos dela traçaram seus contornos suavemente — a testa, as sobrancelhas, o nariz, as bochechas. — Eu nunca senti isso por ninguém — ela sussurrou. — Nem por Marcelo. O que sinto por você é... é assustador. — Para mim também é — Paulo admitiu, cobrindo a mão dela com a sua. — Mas é o tipo de medo que vale a pena enfrentar. E então, lentamente, ele se inclinou na direção dela. Sentiu a respiração de Emily acelerar, sentiu quando ela também se aproximou. Seus lábios se encontraram em um beijo suave, hesitante no início, mas que rapidamente se aprofundou. Emily se agarrou a ele como se fosse sua tábua de salvação, e Paulo a segurou com toda a força que tinha. O beijo tinha gosto de lágrimas e promessas, de medos compartilhados e esperanças renovadas. Quando finalmente se separaram, ambos estavam sem fôlego. — Paulo — Emily sussurrou contra os lábios dele. — Eu preciso... você pode fazer uma coisa para mim? — Qualquer coisa. Ele a sentiu se mexer, e ouviu o som inconfundível de um caderno sendo aberto e uma caneta sendo destampada. — Escreve comigo? — ela pediu, sua voz carregada de emoção. — Por favor? Paulo sentiu seu coração acelerar. Era exatamente o que ele havia desejado desde aquele primeiro dia. — Sim — ele respondeu, sua voz rouca. Emily guiou a mão dele até o caderno, posicionando-a sobre a página. Então ela colocou sua própria mão sobre a dele, entrelaçando seus dedos, e começou a escrever. Paulo fechou os olhos, concentrando-se na sensação. Ele sentia cada movimento da caneta através dos dedos entrelaçados com os dela, sentia a pressão variando conforme ela formava as letras. Não conseguia entender o que estava sen
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