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Cena 9 — O plano de vingança
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# CENA 9 — O plano de vingança Paulo desligou a videochamada com Rogério e permaneceu sentado em silêncio por longos minutos. O apartamento que alugara em São Paulo estava silencioso demais, amplificando o turbilhão de pensamentos em sua mente. A voz de Emily ecoava incessantemente em sua memória. "Jamais faria isso por você. Fique no seu lugar." Seu lugar. Como se ele fosse menos. Como se o desejo de compartilhar algo tão simples quanto sentir a escrita de alguém fosse um absurdo, uma pretensão inaceitável. Paulo levantou-se e caminhou até a cozinha, contando mentalmente os passos. Doze passos até o balcão. Conhecia cada centímetro daquele espaço. Preparou um café, o aroma forte preenchendo o ambiente, mas nem isso conseguiu acalmá-lo. Nathany ligara mais cedo, preocupada. Soubera da demissão dele da Caixa através de André, e queria saber como ele estava se adaptando ao novo emprego. Paulo mentira, dizendo que estava tudo bem. Não tinha coragem de contar que a chefe bilionária o havia humilhado. Ele pegou o celular e ativou o leitor de tela, navegando distraidamente pelas mensagens. Foi então que viu: uma mensagem de Aline Mendes. "Paulo! Quanto tempo! Vi no LinkedIn que você está em São Paulo agora. Precisamos nos encontrar!" Aline. Paulo sentiu um sorriso involuntário formar-se em seus lábios. Conhecera Aline três anos atrás, num evento de tecnologia. Ela era desenvolvedora, inteligente, bem-humorada. E, por alguma razão que Paulo nunca entendeu completamente, ela gostava de escrever à mão, mesmo sendo da área tech. Lembrava-se perfeitamente daquele dia em que passaram quatro horas juntos num café, conversando sobre agentes inteligentes, machine learning, e a vida. Em determinado momento, Aline começou a fazer anotações, e Paulo, com a naturalidade de quem não tinha nada a perder, perguntou se poderia sentir. Ela aceitou sem hesitar. Quatro horas. Dedos entrelaçados, sentindo cada movimento da caneta dela, cada curva, cada pressão no papel. Não entendia as palavras, mas sentia a energia, a emoção por trás de cada traço. Era íntimo de uma forma que ele nunca conseguira explicar para ninguém. Por que nunca levara aquilo adiante? Timidez. Sempre a maldita timidez. Paulo respondeu a mensagem de Aline, e em poucos minutos estavam conversando. Ela morava em São Paulo, trabalhava como freelancer. Quando Paulo mencionou que estava na SouzaTech, houve uma pausa significativa. "A empresa da Emily Souza?" A voz de Aline pelo áudio do WhatsApp tinha um tom peculiar. "Sim. Você a conhece?" Outra pausa. "Digamos que tivemos... um desentendimento no passado. Ela tentou me processar por quebra de contrato quando recusei uma proposta dela. Foi desagradável. Ela é extremamente controladora." Paulo sentiu algo se acender dentro dele. Uma ideia. Perigosa, talvez infantil, mas irresistível. "Aline, deixa eu te contar uma coisa..." Nos minutos seguintes, Paulo relatou o episódio da reunião, a humilhação, as palavras cortantes de Emily. Aline escutou em silêncio, e quando ele terminou, ela soltou um suspiro longo. "Que vadia," disse ela, sem rodeios. "Desculpa, Paulo, mas é o que ela é. Trata as pessoas como peças descartáveis." "Vai ter um jantar da empresa semana que vem," Paulo continuou, a ideia ganhando forma enquanto falava. "Cada funcionário pode levar um acompanhante." "E você quer que eu vá com você." Não era uma pergunta. Aline entendera imediatamente. "Quero mais que isso." A voz de Paulo estava firme agora, a raiva transformando-se em determinação. "Quero que ela veja que não sou menos que ninguém. Que outras pessoas valorizam o que ela desprezou." Aline riu, um som baixo e conspiratório. "Paulo Gardinalli planejando uma vingança? Nunca pensei que veria esse dia. Conta tudo. O que você tem em mente?" Paulo sentiu o coração acelerar. Estava mesmo fazendo aquilo? Sim. Estava. "Lembra das nossas quatro horas de escrita?" "Como esquecer? Foi um dos dias mais interessantes que já tive." "Então vamos fazer isso de novo. No jantar. Na frente dela." Paulo fez uma pausa. "Vamos sentar perto da mesa de Emily. Vamos conversar alto o suficiente para ela ouvir sobre aquelas quatro horas. E então você vai pegar seu caderno, aquele que você sempre carrega, e vai começar a escrever. E eu vou entrelaçar meus dedos com os seus." O silêncio do outro lado era tenso, carregado. "Você quer deixá-la com ciúmes," Aline disse lentamente. "Quero que ela sinta o que me fez sentir. Quero que ela veja que recusou algo que outra pessoa dá sem pensar duas vezes." "Paulo..." Aline hesitou. "Não vou mentir. A ideia de ver Emily Souza perdendo a compostura me agrada. Muito. Mas você tem certeza? Isso pode ter consequências no seu trabalho." "Tenho outra fonte de renda. Se ela me demitir, sobrevivo." A voz de Paulo estava fria agora, resoluta. "Mas não vou deixar que ela pense que pode me tratar assim e sair ilesa." Aline soltou uma risada. "Sabe de uma coisa? Estou dentro. Mas vamos fazer direito. Se é para causar impacto, vamos causar impacto de verdade." "O que você tem em mente?" "No final, quando estivermos escrevendo juntos, vou beijar você. Quase nos lábios, mas não exatamente. Sabe, aquele beijo que é ambíguo, que deixa todo mundo sem saber se foi acidente ou intencional." Paulo engoliu seco. "Aline..." "Relaxa. É só teatro. Mas vai ser um teatro convincente." Ela fez uma pausa. "Você merece melhor do que foi tratado, Paulo. E eu vou adorar ver a cara da Emily quando perceber que perdeu a chance." Nos dias seguintes, Paulo mergulhou no trabalho com uma intensidade renovada. Era como se a raiva o alimentasse, tornando-o ainda mais eficiente. Seus agentes inteligentes funcionavam perfeitamente, impressionando até mesmo os desenvolvedores mais experientes da equipe. Rogério notou a mudança. "Cara, você está em chamas essa semana. O que aconteceu?" Paulo sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos. "Só fazendo meu trabalho." "É mais que isso. Você está... diferente. Mais confiante." Talvez Rogério estivesse certo. Pela primeira vez desde que entrara na SouzaTech, Paulo não se sentia pequeno. Tinha um plano. Tinha controle sobre algo. Emily continuava aparecendo nas reuniões, sua voz sempre profissional, sempre distante. E em cada reunião, ela mencionava o evento no Rio de Janeiro. "Levarei o Gustavo comigo," ela anunciou numa quinta-feira. "Ele demonstrou excelente trabalho no projeto de automação." Paulo ouviu Rogério resmungar baixinho ao seu lado. Gustavo era competente, sim, mas estava longe de ser o melhor da equipe. Todos sabiam disso. "Isso é pessoal," Rogério sussurrou para Paulo depois que a reunião terminou. "Ela está te ignorando de propósito." "Eu sei," Paulo respondeu calmamente. "Mas não vai durar muito." "O que você quer dizer?" "Você vai ver no jantar." Rogério o estudou por um momento. "Paulo, você está planejando alguma coisa?" "Digamos que não vou mais aceitar ser tratado como invisível." O dia do jantar chegou com uma sexta-feira ensolarada. Paulo acordou cedo, mais nervoso do que gostaria de admitir. Passou a manhã trabalhando, mas sua mente estava em outro lugar. Aline ligou à tarde. "Ainda está firme no plano?" "Completamente." "Ótimo. Vou usar meu vestido azul escuro, aquele que eu sei que Emily odeia porque usei numa apresentação onde praticamente roubei a cena dela. E vou levar meu caderno de couro, o italiano, aquele bonito." "Aline, você está gostando disso demais." "Ah, estou sim. Não vou mentir. Aquela mulher merece descer do pedestal." Ela fez uma pausa. "Mas Paulo, sério. Se você quiser desistir, não tem problema. Não vou ficar chateada." Paulo pensou por um momento. Pensou na voz de Emily dizendo "fique no seu lugar". Pensou em todas as vezes que fora menosprezado, invisibilizado, tratado como se sua deficiência o tornasse menos capaz de sentir, de desejar, de viver. "Não vou desistir." "Então nos vemos às sete." Paulo escolheu sua melhor roupa: calça social preta, camisa branca, blazer azul marinho. Simples, mas elegante. Pediu um Uber para buscá-lo às seis e meia. O restaurante era um dos mais sofisticados de São Paulo, no Jardins. Paulo sentiu o cheiro de dinheiro no ar assim que entrou: perfumes caros, o murmúrio de conversas educadas, o tinir de taças de cristal. "Paulo!" A voz de Aline veio da esquerda. Ela o pegou pelo braço. "Você está ótimo." "Você também, imagino." "Estou deslumbrante, obrigada por perguntar." Ela riu. "A Emily acabou de chegar. Está com um vestido vermelho, cabelo preso. E me viu. A cara dela foi impagável." "Onde ela está sentada?" "Mesa principal, claro. Com alguns diretores. Tem uma mesa vazia bem perto, umas três mesas de distância. Perfeita para nossos propósitos." Aline o guiou até a mesa. Paulo sentiu o coração disparar. Estava realmente fazendo aquilo. Não havia mais volta. Eles se sentaram, e Aline começou a descrever o ambiente baixinho, como sempre fazia quando estavam juntos. Era um hábito dela que Paulo apreciava: ela nunca o tratava como se ele fosse de vidro, mas também nunca o deixava completamente no escuro sobre o que acontecia ao redor. "Ela está te encarando," Aline sussurrou. "Não, espera. Agora está olhando para mim. Se olhares matassem, eu estaria morta." "Vamos começar então." Aline elevou a v