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Cena 7 — A rejeição dura

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# CENA 7 — A rejeição dura

Paulo saiu da sala de reuniões com as pernas trêmulas. Cada passo pelo corredor da SouzaTech parecia pesar toneladas. As palavras de Emily ainda ecoavam em sua mente como lâminas afiadas: *"Jamais faria isso por você. Fique no seu lugar."*

Ele segurou firme a alça de sua mochila, os dedos apertando o tecido como se aquilo pudesse ancorar sua dignidade que se esvaía. O som de seus passos no piso de mármore era abafado pelo burburinho do escritório — conversas sobre projetos, risadas, o tinir de xícaras de café. Tudo parecia acontecer em um mundo paralelo, distante da dor que o consumia.

Quando finalmente chegou à sua estação de trabalho, Paulo se sentou pesadamente. Seu leitor de tela estava ligado, aguardando comandos, mas ele não tinha forças para tocar no teclado. As mãos permaneceram paradas sobre as pernas, inertes.

*"Fique no seu lugar."*

Que lugar era esse? O lugar do deficiente visual que deveria se contentar com migalhas de interação humana? O lugar daquele que não poderia desejar algo tão simples quanto sentir a escrita de alguém, entrelaçar dedos em um gesto de intimidade e conexão?

Paulo sentiu o rosto queimar. Não era apenas rejeição — era humilhação. E o pior: ele havia se exposto sem dizer uma única palavra. Emily percebera seu desejo apenas pelo modo como ele se inclinara levemente, atento ao som da caneta deslizando no caderno. Ela lera sua vulnerabilidade como se fosse código aberto.

— Paulo? Tudo bem, cara? — A voz de Rogério surgiu ao seu lado, carregada de preocupação.

— Tudo. — A resposta saiu automática, mecânica.

— Não parece. — Rogério puxou uma cadeira e se sentou ao lado dele. — O que aconteceu lá dentro? Depois que a gente saiu, ela te chamou sozinho, né?

Paulo respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. Parte dele queria desabafar, contar tudo para o amigo que se tornara seu confidente nas últimas semanas. Outra parte se sentia envergonhada demais para colocar em palavras.

— Ela... — Paulo começou, a voz rouca. — Ela percebeu algo que eu nem sabia que estava tão óbvio.

— O quê?

— A escrita dela. O som do caderno. Eu... — Ele passou a mão pelo rosto. — Eu quis sentir. Participar daquele momento. E ela percebeu.

Houve um silêncio pesado. Rogério soltou um suspiro longo.

— E ela te rejeitou.

Não era uma pergunta. Era uma constatação que fez o peito de Paulo apertar ainda mais.

— De um jeito que me fez sentir... pequeno. — A voz de Paulo falhou. — Como se eu tivesse ultrapassado algum limite invisível que eu nem sabia que existia.

— Paulo, escuta. — Rogério se aproximou mais. — A Emily é... complicada. Ela é rígida com todo mundo, mas tem algo nela que é mais do que isso. Já vi ela devastar pessoas com palavras, mas também já a vi sozinha no escritório, depois que todos vão embora, e juro que parece uma pessoa completamente diferente.

— Isso não muda o que ela me disse. — Paulo balançou a cabeça. — E sabe o que é pior? Eu entendo. Ela é a chefe, eu sou apenas mais um funcionário. Ela não me deve nada. Mas a forma como ela falou... foi cruel.

Rogério ficou em silêncio por um momento. Paulo podia sentir o peso da presença do amigo, a hesitação antes de falar.

— Você gosta dela. — Não era uma pergunta.

Paulo deu uma risada amarga.

— Gostar? Eu mal a conheço. Mas aquele som... a caneta no papel, a concentração dela, o ritmo da escrita... — Ele fez uma pausa. — Me hipnotizou. Me fez querer estar ali, compartilhar aquele momento. E ela me jogou na cara que isso jamais aconteceria.

— Cara, eu sinto muito. — Rogério colocou a mão no ombro de Paulo. — Você não merecia isso.

— Talvez eu mereça. — Paulo soltou um suspiro pesado. — Talvez eu tenha sido presunçoso em querer algo assim. Talvez meu lugar seja realmente aqui, na minha estação, fazendo meu trabalho e nada mais.

— Não fala assim. — A voz de Rogério ficou firme. — Você é brilhante, Paulo. Seus agentes inteligentes estão revolucionando o trabalho aqui. A Emily sabe disso, todo mundo sabe. Você tem valor, e não é só profissional.

Paulo quis acreditar naquelas palavras, mas a dor da rejeição era muito recente, muito intensa. Ele acenou com a cabeça, mais para encerrar a conversa do que por concordar.

— Vou trabalhar. Preciso me distrair.

— Se precisar conversar, eu estou aqui. — Rogério apertou seu ombro mais uma vez antes de se levantar.

Quando ficou sozinho novamente, Paulo colocou os fones de ouvido e ligou o leitor de tela. O trabalho sempre fora seu refúgio, o lugar onde se sentia competente e valorizado. Ali, no universo do código e dos algoritmos, ele era mestre. Ali, ninguém poderia rejeitá-lo.

Mas mesmo enquanto seus dedos dançavam sobre o teclado, criando estruturas elegantes de agentes inteligentes que conversavam entre si e resolviam problemas complexos, uma parte dele permanecia naquela sala de reuniões.

Permanecia no som da caneta de Emily deslizando sobre o papel.

Permanecia na esperança que ele nem sabia que carregava até ser brutalmente esmagada.

*"Fique no seu lugar."*

Paulo trabalhou até tarde naquela noite, como se a exaustão pudesse apagar a humilhação. Mas quando finalmente desligou o computador e chamou o transporte por aplicativo, a dor ainda estava lá.

Intacta.

Pulsante.

Real.

E ele sabia que levaria tempo para cicatrizar — se é que um dia cicatrizaria completamente.
Configuração

Dica: use o Sonnet para escrever cena (qualidade), Haiku para rascunhos rápidos.

Ex: “Mais intensa”, “mais diálogo”, “menos narração”, “mais sensual, mas sem beijar na boca”, etc. A continuidade com análise RLM é aplicada automaticamente.

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