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Cena 6 — A reunião e o som da caneta

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# CENA 6 — A reunião e o som da caneta

A sala de reuniões da SouzaTech tinha uma acústica peculiar. Paulo percebeu isso assim que entrou, seguindo o som dos passos de Rogério à sua frente. O ambiente era amplo, com paredes que pareciam absorver os sons de forma diferente do resto do escritório. Havia um leve eco quando alguém falava, mas nada desconfortável.

— Mesa grande, formato retangular — sussurrou Rogério, guiando Paulo até uma cadeira. — Você está do lado direito, terceira posição. A Emily costuma sentar na cabeceira oposta à porta.

Paulo assentiu, acomodando-se. Outros membros da equipe foram chegando, cumprimentando-o com familiaridade. Em três semanas na empresa, ele já havia conquistado o respeito de todos com seu trabalho excepcional. Seus agentes inteligentes estavam revolucionando processos que antes levavam meses.

O burburinho cessou quando uma presença entrou na sala. Paulo não precisava ver para saber que era ela. Emily Souza tinha uma forma particular de se mover — passos firmes, decididos, uma cadência que transmitia autoridade absoluta. O salto alto batia no piso com precisão rítmica.

— Bom dia — a voz dela era clara, sem rodeios. — Vamos começar. Temos muito a discutir sobre o projeto de automação do setor financeiro.

Houve um arrastar de cadeiras, pessoas se ajeitando. Paulo ouviu quando Emily se sentou. Estava longe dele, talvez a uns quatro ou cinco metros de distância, na cabeceira da mesa como Rogério havia previsto.

Então veio o som.

Um caderno sendo aberto. Páginas virando. E depois, a caneta.

Paulo ficou imóvel, todos os seus sentidos aguçados voltando-se para aquele som específico. A caneta de Emily deslizava sobre o papel com uma fluidez hipnotizante. Não era apenas o ato de escrever — era a forma como ela fazia. Havia ritmo, pausas deliberadas, a pressão variando conforme as palavras se formavam.

Ele conseguia imaginar os movimentos. A mão dela percorrendo a página, os dedos segurando a caneta com firmeza, mas não com rigidez. Havia algo quase musical naquilo, uma dança silenciosa que só ele parecia estar ouvindo de verdade enquanto os outros se concentravam nas palavras que ela falava.

— O Paulo desenvolveu um sistema que reduziu em 70% o tempo de análise de crédito — Emily estava dizendo, sua voz profissional e distante. — Rogério, quero que você explique como podemos escalar isso para outros departamentos.

Mas Paulo mal ouvia as palavras. Estava perdido no som da escrita. Cada vez que ela anotava algo, ele sentia um desejo crescente, quase físico, de estar ali. De participar daquele momento. De estender a mão, entrelaçar seus dedos com os dela e sentir o movimento da caneta, a emoção por trás das palavras que ela escrevia.

Seria íntimo. Seria uma conexão que ia além do visual, além do superficial. Seria sentir o que ela sentia, o ritmo do pensamento dela se transformando em palavras através do toque.

— Paulo? — a voz de Rogério o trouxe de volta. — Você pode explicar sobre os parâmetros de aprendizado dos agentes?

Ele se recompôs rapidamente, sua mente brilhante voltando ao foco profissional.

— Claro. Os agentes utilizam um sistema de reforço adaptativo que...

Enquanto falava, explicando conceitos complexos com claridade impressionante, parte dele ainda estava atenta ao som da caneta de Emily. Ela continuava anotando, e Paulo se perguntou se ela estava registrando o que ele dizia. A ideia fez seu coração acelerar.

A reunião prosseguiu por mais quarenta minutos. Discussões sobre prazos, recursos, integrações de sistemas. Paulo participou ativamente, impressionando a todos com suas sugestões e soluções criativas para problemas que pareciam intransponíveis.

Mas cada vez que o som da caneta recomeçava, ele se perdia novamente naquela fantasia silenciosa.

— Muito bem — Emily finalmente concluiu. — Acho que cobrimos tudo. Podem ir. Paulo, você fica.

O clima na sala mudou instantaneamente. Paulo sentiu a tensão, ouviu as trocas de olhares que, mesmo sem vê-las, ele sabia que estavam acontecendo. Rogério hesitou ao seu lado.

— Pode deixar, Rogério — a voz de Emily era firme. — Não vai demorar.

Um por um, os outros saíram. A porta se fechou com um clique suave, e Paulo ficou sozinho com ela naquela sala grande demais.

O silêncio era pesado.

Paulo ouviu quando Emily se levantou. Os passos dela se aproximaram, contornando a mesa. Ela parou a alguns metros dele, mantendo distância.

— Eu sei o que você queria — ela disse, sem preâmbulos. A voz tinha perdido toda a cordialidade profissional. Agora era fria, quase cruel. — Durante a reunião. Sei exatamente o que você estava pensando.

Paulo sentiu o sangue gelar. Como ela poderia...?

— Eu já tive um funcionário deficiente visual aqui — Emily continuou. — Felipe. Excelente profissional, hoje trabalha na Google. Ele namorava a Júlia, uma das minhas analistas. São casados agora.

Ela fez uma pausa, e Paulo ouviu quando ela cruzou os braços. O tecido da roupa roçando.

— Sempre que tínhamos reuniões e a Júlia anotava algo, o Felipe pedia para escrever com ela. Entrelaçava os dedos, sentia o movimento. Eles achavam aquilo romântico, íntimo. — A voz de Emily estava carregada de algo que Paulo não conseguia identificar. Raiva? Dor? — Eu via aquilo toda semana.

O coração de Paulo batia forte. Ela tinha razão. Era exatamente isso que ele queria.

— Então não tente me enganar, Paulo. Eu sei que você queria fazer a mesma coisa. Conseguia ouvir você completamente distraído, focado no som da minha caneta. — Emily deu um passo mais próximo, e sua voz ficou ainda mais dura. — Mas vou deixar uma coisa muito clara: isso jamais vai acontecer. Jamais.

As palavras caíram como pedras.

— Você é um excelente profissional. O melhor que já contratei em anos. Mas fique no seu lugar. — A frieza era absoluta agora. — Não confunda ambiente profissional com intimidade. Não confunda sua competência técnica com qualquer tipo de... proximidade pessoal.

Paulo sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. A rejeição era tão brutal, tão desnecessariamente cruel, que ele ficou sem palavras.

— Você está dispensado — Emily disse, já se afastando. — E Paulo? Isso nunca mais será discutido. Estamos entendidos?

Ele conseguiu apenas acenar com a cabeça, a garganta apertada demais para falar.

— Ótimo. Pode ir.

Paulo se levantou, as pernas bambas. Tateou até encontrar a bengala que havia deixado encostada na cadeira e caminhou até a porta, cada passo pesado de humilhação.

Quando saiu, a porta se fechando atrás de si, ele ouviu um som vindo de dentro da sala. Algo como um suspiro profundo, trêmulo. Mas devia ser impressão sua.

Rogério o esperava do lado de fora, preocupação evidente na voz:

— Cara, você está bem? O que aconteceu?

Paulo forçou um sorriso que sabia não ser convincente.

— Nada demais. Só... esclarecimentos sobre limites profissionais.

Mas enquanto caminhava de volta para sua estação de trabalho, guiado pelo amigo, Paulo sentia algo se despedaçando dentro dele. Não era apenas a rejeição — era a dureza, a frieza calculada com que Emily o havia colocado no que ela chamou de "seu lugar".

E o pior de tudo era que ele não conseguia tirar da cabeça o som daquela caneta deslizando sobre o papel, o movimento que ele nunca teria permissão de sentir.
Configuração

Dica: use o Sonnet para escrever cena (qualidade), Haiku para rascunhos rápidos.

Ex: “Mais intensa”, “mais diálogo”, “menos narração”, “mais sensual, mas sem beijar na boca”, etc. A continuidade com análise RLM é aplicada automaticamente.

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