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Cena 1 — A Vida Dupla de Vitória

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# CENA 1 — A Vida Dupla de Vitória

A luz da tarde entrava pelas cortinas do apartamento alugado, criando padrões dourados sobre o teclado onde Vitória digitava freneticamente. Seus dedos dançavam sobre as teclas com uma precisão quase musical, linhas de código se formando na tela como versos de uma poesia que só ela entendia completamente.

— Gabe! — ela chamou, sem tirar os olhos do monitor. — Vem ver isso aqui. Consegui implementar um sistema de feedback auditivo que muda de tom conforme a proximidade dos obstáculos. Um jogador cego vai conseguir navegar pelo cenário só pelo som.

Gabriel levantou os olhos do próprio notebook, onde trabalhava em seu projeto secreto. Forçou um sorriso que não alcançou seus olhos.

— Que incrível, amor — respondeu, com uma dose calculada de entusiasmo falso. — Você é brilhante mesmo.

Vitória finalmente se virou, seu rosto iluminado por aquele sorriso que transformava toda sua expressão. Gabriel teve que admitir, mesmo que apenas para si mesmo, que ela era bonita quando sorria assim. Uma pena que fosse tão... intensa. Tão grudenta. Tão obsessiva com essas questões ridículas de acessibilidade.

— Vem codar comigo — ela pediu, estendendo a mão. — Quero te mostrar como funciona a integração com leitores de tela. Você vai usar isso no seu projeto também, né?

*Claro que não*, Gabriel pensou, enquanto se levantava e caminhava até ela. *Cego tem que jogar jogo de cego. Meu jogo é para gente normal, para quem pode realmente apreciar os gráficos incríveis que estou criando.*

— Claro — ele disse em voz alta, puxando uma cadeira para sentar ao lado dela. — Me ensina tudo.

E ela ensinou. Como sempre fazia. Vitória era generosa com seu conhecimento, compartilhando cada técnica, cada truque, cada linha de código que havia levado anos para dominar. Gabriel absorvia tudo como uma esponja, anotando mentalmente cada detalhe que poderia usar em seu próprio jogo.

O jogo que seria só dele. O jogo que o tornaria famoso. O jogo que provaria que ele não precisava dela.

Duas horas depois, quando o sol começava a se pôr, Vitória se espreguiçou e olhou para a pia da cozinha. Seus olhos brilharam com aquela alegria infantil que Gabriel aprendeu a temer.

— Gabe, olha quanta louça! — ela disse, como se tivesse encontrado um tesouro. — Vamos lavar juntos?

Gabriel sentiu seu estômago revirar. *Aquilo* de novo. Aquele ritual nojento e infantil que ela insistia em transformar em momento de casal.

— Amor, eu preciso terminar aquele código — ele tentou escapar.

O rosto de Vitória caiu ligeiramente, e Gabriel conhecia aquela expressão. Ela ficaria magoada. Faria aqueles olhos tristes. E ele precisava mantê-la feliz só mais um pouco. Só até terminar o jogo. Só até conseguir o que precisava.

— Tá bom — ele suspirou, forçando outro sorriso. — Vamos lavar essa louça.

O rosto dela se iluminou novamente, e Gabriel se perguntou como alguém podia ser tão patético a ponto de ficar feliz por lavar louça.

Vitória encheu a pia com água quente, adicionou detergente até formar uma montanha de espuma branca e fofa. Começou a lavar os pratos com movimentos suaves, cantarolando baixinho uma música que Gabriel não reconhecia.

— Gabe, você seca — ela instruiu, passando-lhe um prato limpo e escorrendo.

Ele pegou o pano de prato e começou a secar, mecanicamente, querendo que aquilo terminasse logo.

Mas então Vitória fez o que sempre fazia. Pegou um punhado de espuma e começou a desenhar na superfície da pia. Primeiro um coração. Depois uma estrela. Seus dedos brincavam na espuma como se fosse neve, como se fosse arte.

— Olha, um sol! — ela riu, desenhando um círculo com raios ao redor.

Gabriel sentiu náusea. Aquelas mãos que tocavam a espuma suja, cheia de restos de comida, gordura, sujeira. Era asqueroso. Era nojento. Como ela conseguia achar aquilo divertido?

— Faz um desenho você também — ela pediu, olhando para ele com expectativa.

*Não. Não. Não.*

Mas ele estendeu a mão, enfiou os dedos naquela espuma repugnante e desenhou algo que poderia ser um peixe. Ou um blob disforme. Tanto fazia.

— Que lindo! — Vitória exclamou, genuinamente encantada. — Você está melhorando!

Ela pegou mais espuma e desenhou um peixe ao lado do dele, maior e mais detalhado. Então fez bolhas saindo da boca dos peixes. E algas. Transformou a pia numa cena submarina feita de espuma e detergente.

Gabriel forçou uma risada, mas por dentro contava os dias. Faltava pouco. Seu jogo estava quase pronto. Ele já tinha aprendido tudo o que precisava dela. Já tinha até comprado o apartamento em segredo — o apartamento *dela*, que em breve seria dele.

E então ele a expulsaria. Jogaria aquela criatura grudenta e nojenta para fora. E ficaria com tudo: o apartamento, o conhecimento, o sucesso que deveria ser dele desde o início.

— Sobre o que você está pensando? — Vitória perguntou, limpando a pia com o pano ensaboado em movimentos circulares, claramente saboreando até aquele último momento do ritual.

— Em como sou sortudo por ter você — Gabriel mentiu, e a mentira saiu tão suave quanto sempre saía.

Vitória se inclinou e beijou sua bochecha, deixando uma pequena marca de espuma.

— Eu que sou sortuda — ela sussurrou. — Você é o único que entende minhas manias. O único que aceita como eu sou.

Gabriel limpou a espuma do rosto e sorriu.

*Continue pensando isso*, ele pensou. *Continue pensando que alguém como você merece ser amada.*

Mas em voz alta, disse apenas:

— Para sempre, amor. Nós dois para sempre.

E Vitória, inocente e apaixonada, acreditou.
Configuração

Dica: use o Sonnet para escrever cena (qualidade), Haiku para rascunhos rápidos.

Ex: “Mais intensa”, “mais diálogo”, “menos narração”, “mais sensual, mas sem beijar na boca”, etc. A continuidade com análise RLM é aplicada automaticamente.

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