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Cena 1 — Paulo chega à cobertura de Emily
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# CAPÍTULO 2 — RECONCILIAÇÃO E RELACIONAMENTO ## CENA 1 — Paulo chega à cobertura de Emily O táxi parou em frente ao edifício mais imponente da Avenida Faria Lima. Paulo segurou firme sua bengala, o coração martelando contra as costelas como se quisesse fugir do peito. Cada batida ecoava a mesma pergunta: o que ele estava fazendo ali? — Chegamos, senhor — anunciou o motorista. Paulo pagou a corrida, as mãos tremendo levemente ao manusear as notas. O ar frio da noite de São Paulo cortava seu rosto, mas não era o vento que o fazia tremer. Ao entrar no lobby, seus passos ecoaram no mármore. O ambiente cheirava a madeira nobre e perfume caro — o tipo de lugar que Paulo jamais imaginara frequentar fora de compromissos profissionais. — Boa noite. O senhor deve ser Paulo Gardinalli — uma voz masculina, educada e formal, veio da recepção. — A senhora Marina me avisou. Pode subir direto. Cobertura, último andar. O elevador está à sua direita, a cinco passos. — Obrigado. Paulo caminhou até o elevador, cada passo pesando como chumbo. Entrou, e a cabine subiu em silêncio, apenas o ronco suave da maquinaria acompanhando seus pensamentos tumultuados. *Ela estava chorando. Por minha causa.* A lembrança da cena no jantar voltou como uma punhalada. Ele havia planejado tudo meticulosamente, cada detalhe pensado para ferir, para mostrar a Emily que ele também podia rejeitar, que ele também tinha poder. Mas quando Marina descreveu a expressão de Emily — a dor nua e crua estampada em seu rosto — Paulo sentiu seu estômago revirar. Ele não era esse homem. Nunca fora. O elevador parou com um suave *ding*, e as portas se abriram. Paulo deu um passo para fora e sentiu a textura diferente do piso sob seus pés — madeira, não mármore. O ar aqui era diferente também, mais quente, perfumado com algo floral e delicado. O espaço parecia imenso; o som de seus passos não ecoava como no lobby, absorvido por tapetes e móveis que ele só podia imaginar. — Emily? — chamou, a voz saindo mais hesitante do que pretendia. Silêncio. — Emily, é o Paulo. Marina me deu seu endereço. Eu... preciso falar com você. Ainda nada. Mas então, tão baixo que quase não ouviu, veio um soluço. Vinha da esquerda, de algum lugar mais à frente. Paulo seguiu o som, a bengala explorando o caminho. Contornou o que parecia ser um sofá amplo, passou por uma mesa de centro, até que o choro ficou mais próximo. — Emily? — repetiu, mais suave desta vez. — Vai embora. — A voz dela estava destruída, rouca de tanto chorar. — Por favor, vai embora. Paulo parou. Ela estava perto, provavelmente sentada no chão, pelo ângulo de onde vinha a voz. — Não vou — disse ele, firme. — Não até conversarmos. — Não tem nada para conversar. — Outro soluço. — Você já fez o que queria. Já me mostrou que eu não passo de uma idiota que afasta todo mundo. Já me colocou no meu lugar. Está satisfeito? A dor na voz dela atravessou Paulo como uma lâmina. — Não — respondeu, a própria voz embargada. — Não estou. Estou arrependido. Ele ouviu um movimento, como se ela tivesse se encolhido ainda mais. — Eu mereço — murmurou Emily. — Mereço tudo isso. Fui horrível com você. Disse aquelas coisas terríveis quando você só queria... quando você só... A frase morreu em mais choro. Paulo abaixou-se lentamente, dobrando os joelhos até sentar-se no chão. Não sabia exatamente onde ela estava, mas precisava estar no mesmo nível, compartilhar o mesmo espaço vulnerável. — Você me rejeitou — disse Paulo, e as palavras saíram cruas, honestas. — Naquela sala, depois da reunião. Eu só queria participar do que você estava fazendo, sentir a escrita, estar perto de você. E você me tratou como se eu fosse... menos. Como se minha deficiência me tornasse inadequado para estar ao seu lado. — Eu sei — a voz de Emily era um sussurro quebrado. — Eu sei, Paulo. E não tem desculpa. Não tem justificativa. Eu estava com medo. — Medo? — Paulo franziu o cenho. — Medo de quê? — De você. — Um silêncio. — De mim. Do que eu sinto. Do que eu sempre sinto e que sempre afasta todo mundo. Paulo sentiu o coração apertar. — O Marcelo disse que eu sou demais — continuou Emily, as palavras saindo entre soluços. — Que nenhum homem jamais me aguentaria. Que eu deveria me proteger, não deixar ninguém se aproximar. E quando você quis... quando você demonstrou interesse, eu entrei em pânico. Porque eu já sabia que ia estragar tudo. Que ia ser intensa demais, possessiva demais, e você ia fugir como todos fugiram. — Então você me afastou primeiro — Paulo completou, compreensão inundando sua voz. — Sim. — A palavra saiu tão baixa que ele quase não ouviu. — Mas isso não me dá o direito de ter sido cruel. Não justifica o que eu disse. E quando te vi hoje com a Aline, quando vi você fazendo com ela o que queria fazer comigo... eu percebi que tinha perdido algo precioso antes mesmo de ter tido a chance de conhecer. Paulo estendeu a mão, tateando no escuro até encontrar o que procurava. Seus dedos tocaram um braço — fino, trêmulo. Emily não se afastou. — Eu também errei — admitiu Paulo. — Fui lá com a Aline para te machucar. Para te mostrar que eu também podia rejeitar, que eu também tinha valor. Mas não era isso que eu queria de verdade. — O que você queria? — perguntou Emily, a voz tão frágil que parecia prestes a se quebrar. Paulo deslizou a mão pelo braço dela até encontrar sua mão. Entrelaçou seus dedos nos dela — não para sentir a escrita, mas para sentir *ela*. — Queria você — respondeu simplesmente. — Queria escrever com você. Queria estar perto de você. Queria conhecer a pessoa por trás daquela rigidez toda. Emily soluçou novamente, mas desta vez sua mão apertou a dele de volta. — Você não me conhece — sussurrou. — Se conhecesse, fugiria. Eu sou... eu sou intensa. Possessiva. Ciumenta. Eu vou querer você perto de mim o tempo todo. Vou querer saber onde você está, com quem está. Vou querer que você seja só meu. Para sua surpresa, Paulo sorriu. — E se eu te disser que é exatamente isso que eu sempre quis? — Sua voz saiu suave, quase divertida. — Uma mulher que seja intensa. Que me queira tanto quanto eu a quero. Que não tenha medo de ser possessiva, de reivindicar o que é dela. Ele sentiu Emily congelar. — Você... o quê? — Sou tímido, Emily. Envergonhado. Nunca soube me aproximar de mulheres. Mas sempre sonhei com alguém que fosse o oposto de mim nesse aspecto. Alguém que não tivesse medo de me reivindicar, de me querer, de ser abertamente apaixonada. — Isso não existe — Emily balançou a cabeça, e Paulo sentiu o movimento através da mão entrelaçada. — Você está dizendo isso agora, mas quando eu começar a ser eu mesma, quando eu— — Quando você o quê? — Paulo a interrompeu. — Quando você quiser passar horas escrevendo comigo? Quando você quiser que eu vá a todos os eventos com você? Quando você quiser me ter por perto o tempo todo? Ele apertou a mão dela. — Porque eu também quero tudo isso, Emily. Também quero estar perto de você. Também quero participar dos seus momentos. Também quero ser só seu. O silêncio que se seguiu foi diferente dos anteriores. Não era pesado de dor, mas denso de possibilidade. — Eu não mereço você — Emily finalmente sussurrou. — Não depois do que fiz. — E eu não mereço uma segunda chance depois do que fiz hoje — Paulo respondeu. — Mas talvez a gente não precise merecer. Talvez a gente só precise tentar. Ele sentiu quando Emily se moveu, aproximando-se. De repente, ela estava mais perto, tanto que ele podia sentir o calor do corpo dela, o perfume floral mais intenso, a respiração irregular de quem chorou demais. — Eu vou te machucar — avisou ela, a voz ainda trêmula. — Não de propósito, mas vou. Porque eu não sei ser de outro jeito. — E eu vou te decepcionar às vezes — Paulo contra-argumentou. — Porque também não sou perfeito. Mas talvez a gente possa aprender juntos. Ele sentiu os dedos livres de Emily tocarem seu rosto, traçando suas feições como se estivesse memorizando cada detalhe. Era uma inversão curiosa — ela vendo através do toque, como ele fazia com o mundo. — Eu quero tentar — Emily sussurrou. — Mas estou com tanto medo, Paulo. Tanto medo de estragar tudo de novo. Paulo levou a mão livre ao rosto dela também, encontrando bochechas molhadas de lágrimas. Gentilmente, começou a enxugá-las com o polegar. — Então vamos ter medo juntos — disse ele. — E vamos tentar mesmo assim. E ali, sentados no chão da cobertura mais luxuosa que Paulo já pisara, cercados por móveis caros e uma vista que ele nunca veria, mas que Emily descreveria para ele mil vezes nos meses seguintes, eles permaneceram em silêncio. Apenas duas pessoas feridas, segurando as mãos um do outro, ousando acreditar que talvez, apenas talvez, pudessem encontrar cura juntos.