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Cena 14 — O arrependimento e a missão

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# CENA 14 — O arrependimento e a missão

Paulo ainda estava sentado à mesa quando sentiu a presença de alguém se aproximando com passos rápidos e determinados. O perfume era diferente — floral, discreto, profissional.

— Paulo Gardinalli? — A voz feminina era firme, mas carregava uma urgência que ele não conseguiu ignorar.

— Sim? — Ele virou o rosto na direção da voz, confuso.

— Sou Marina, assistente executiva da Emily. Precisamos conversar. Agora.

Aline, ao seu lado, ficou em silêncio. Paulo podia sentir a tensão no ar mudando completamente.

— Sobre o quê? — perguntou ele, ainda processando o que havia acabado de acontecer. Emily tinha saído correndo. Ele tinha ouvido os passos apressados dela, o som abafado que poderia ter sido um soluço.

— Sobre o estrago que você acabou de fazer — Marina não estava sendo agressiva, mas suas palavras cortavam como lâminas afiadas. — Você tem ideia do que acabou de acontecer?

Paulo sentiu o peso no peito aumentar. Aline tocou seu braço levemente.

— Eu vou deixar vocês conversarem — murmurou ela, levantando-se. — Paulo, me liga depois.

Ele apenas acenou com a cabeça, ouvindo os saltos de Aline se afastarem. Marina puxou a cadeira ao lado dele e sentou-se. Paulo podia sentir que ela estava se controlando para não explodir.

— Emily está chorando — disse Marina, sua voz baixa mas intensa. — Ela saiu daqui destruída.

— Eu... — Paulo começou, mas as palavras morreram em sua garganta. O que ele poderia dizer? Que tinha planejado aquilo? Que queria machucá-la como ela o havia machucado?

— Você sabe por que ela foi tão dura com você naquele dia? — Marina não esperou resposta. — Porque ela está apavorada. Emily foi rejeitada tantas vezes, Paulo. Homens que fugiram dela, que a chamaram de sufocante, possessiva, intensa demais. O último foi Marcelo, há dois meses. Ele disse que nenhum homem jamais aguentaria ela, que ela deveria desistir de se envolver com alguém.

Paulo sentiu como se tivesse levado um soco no estômago.

— Eu não sabia...

— Claro que não sabia! — Marina suspirou, frustrada. — Mas agora sabe. E sabe o que é pior? Emily não tem o direito de reivindicar você. Ela mesma criou essa distância. Ela te rejeitou primeiro. Então, quando te viu ali com Aline, fazendo exatamente o que ela se recusou a fazer com você... — Marina fez uma pausa. — Ela percebeu o que perdeu. E percebeu que não tem direito nenhum de sentir o que está sentindo.

Paulo passou a mão pelo rosto. A culpa estava começando a corroê-lo por dentro.

— Eu só queria... ela foi tão cruel comigo. Disse para eu ficar no meu lugar, como se eu fosse...

— Inferior? — Marina completou. — Eu sei. E ela estava errada. Completamente errada. Mas Paulo, você precisa entender uma coisa: Emily constrói muros porque tem medo de ser machucada. E hoje, você derrubou todos esses muros de uma vez só.

— O que eu fiz? — A voz de Paulo saiu quase como um sussurro.

— Você mostrou a ela exatamente o que ela quer, mas com outra pessoa. Você mostrou que é possível, que você é capaz de se entregar para alguém, de ser vulnerável, de compartilhar aquele momento íntimo de escrita que ela tanto desejava com você. Só que não foi com ela.

O silêncio pesou entre eles. Paulo podia ouvir o som distante da música ambiente do restaurante, o burburinho das outras mesas, mas tudo parecia abafado, distante.

— Eu estraguei tudo — disse ele finalmente.

— Não necessariamente — Marina respirou fundo. — Mas Emily está em um estado que me preocupa muito. Conheço ela há cinco anos, Paulo. Já a vi triste, já a vi brava, mas nunca a vi assim. Ela está... quebrando. E se alguém não fizer algo, ela vai entrar em uma espiral que não sei se conseguiremos tirar ela.

— O que você quer que eu faça?

— Vá até ela — Marina disse sem hesitar. — Você é o único que pode consertar isso agora.

— Eu? Mas ela me odeia! Ela deixou isso bem claro.

— Ela não te odeia, Paulo. Ela tem medo de você. Ou melhor, tem medo do que sente por você.

Paulo ficou em silêncio, processando. Seu coração batia forte no peito. Parte dele queria fugir, voltar para casa, esquecer tudo aquilo. Mas outra parte — a parte que tinha se sentido hipnotizado pelo som da caneta dela no papel, a parte que tinha desejado entrelaçar os dedos com os dela — essa parte sabia que Marina estava certa.

— Onde ela está? — perguntou ele, sua voz mais firme agora.

— Na cobertura dela. Zona Sul — Marina já estava tirando o celular da bolsa. — Vou te passar o endereço e ligar para o porteiro. Ele vai te deixar subir.

— Marina... — Paulo hesitou. — E se ela não quiser me ver?

— Então você insiste — disse Marina, sua voz suavizando um pouco. — Paulo, eu vi como Emily te observa quando acha que ninguém está prestando atenção. Vi como ela fica tensa quando você entra na sala. Isso não é indiferença. É o oposto disso.

Paulo assentiu lentamente. Marina tocou seu braço gentilmente.

— Eu vou chamar um carro para você. E Paulo? — ela esperou. — Seja honesto com ela. Completamente honesto. É a única chance que vocês têm.

Quinze minutos depois, Paulo estava no banco de trás de um carro, a cidade de São Paulo passando ao seu redor enquanto ele tentava organizar seus pensamentos. O que ele diria? Como começaria?

O celular dele vibrou. Era uma mensagem de Marina: "O porteiro está avisado. Apartamento 1501. Boa sorte. Ela precisa de você, mesmo que não admita."

Paulo guardou o celular e respirou fundo. Seu coração estava disparado, suas mãos tremiam levemente. Ele tinha enfrentado apresentações para centenas de pessoas, tinha desenvolvido sistemas complexos, tinha viajado sozinho pelo Brasil inteiro.

Mas nada disso o preparara para o que estava prestes a fazer.

O carro parou.

— Chegamos, senhor — disse o motorista.

Paulo pegou sua bengala, agradeceu e saiu do carro. O ar da noite estava fresco, e ele podia ouvir o som distante do trânsito. Encontrou a entrada do prédio, empurrou a porta de vidro.

— Senhor Gardinalli? — Uma voz masculina, provavelmente o porteiro.

— Sim.

— A senhora Marina avisou. Por favor, o elevador à esquerda vai direto para a cobertura.

Paulo acenou em agradecimento e seguiu as instruções. Seus dedos tremiam quando apertou o botão do elevador. As portas se fecharam, e ele começou a subir.

Quinze andares. Quinze andares para decidir o que dizer para uma mulher que ele mal conhecia, mas que de alguma forma tinha conseguido mexer com ele de uma maneira que ninguém mais havia conseguido.

As portas se abriram.

Paulo deu um passo para fora, seus pés encontrando um piso diferente — mármore, pelo som. Ele estava em um pequeno hall privativo. À frente, podia ouvir o som abafado de música vindo de dentro do apartamento.

Aproximou-se da porta e, antes que pudesse mudar de ideia, tocou a campainha.

O som ecoou dentro do apartamento. A música parou.

Paulo esperou, seu coração martelando no peito.

E então ouviu passos se aproximando. Passos lentos, hesitantes.

A porta se abriu.

— Paulo? — A voz de Emily estava rouca, como se ela tivesse chorado muito. — O que você está fazendo aqui?

Ele respirou fundo.

— Vim consertar o que quebrei.
Configuração

Dica: use o Sonnet para escrever cena (qualidade), Haiku para rascunhos rápidos.

Ex: “Mais intensa”, “mais diálogo”, “menos narração”, “mais sensual, mas sem beijar na boca”, etc. A continuidade com análise RLM é aplicada automaticamente.

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