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Cena 11 — O jantar - execução do plano
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# CENA 11 — O jantar - execução do plano O salão do hotel estava repleto quando Paulo e Aline chegaram. O murmúrio de conversas se misturava ao som discreto de música ambiente, e Paulo sentia a vibração de passos sobre o piso de mármore. Seu coração batia mais rápido do que gostaria de admitir. — Ela está lá — sussurrou Aline, segurando o braço dele com firmeza. — Mesa à direita, perto das janelas. Está nos observando. Paulo engoliu em seco. Parte dele queria recuar, mas a lembrança daquelas palavras frias ecoava em sua mente. "Fique no seu lugar." Como se ele não fosse digno nem de um gesto simples, de um momento compartilhado. — Vamos — disse ele, endireitando os ombros. Aline o guiou pela sala, e Paulo captou o momento exato em que as conversas ao redor diminuíram de volume. Sentiu os olhares, a curiosidade, talvez até o julgamento. Mas continuou caminhando. Eles se sentaram em uma mesa estrategicamente próxima. Paulo conseguia ouvir a respiração de Emily, ou imaginava que conseguia. O perfume dela — algo floral com notas de baunilha — chegava até ele em ondas sutis. — Então, Paulo — começou Aline, elevando a voz o suficiente para ser ouvida. — Eu ainda me lembro daquela tarde. Quatro horas escrevendo juntos. Foi tão especial. Paulo forçou um sorriso, sentindo o desconforto crescer em seu peito. — Foi mesmo — respondeu ele, tentando parecer natural. — Você tem uma maneira única de escrever. — Você adorava sentir minha mão se movendo no papel — continuou Aline, e Paulo percebeu o tom teatral demais em sua voz. — A forma como nossos dedos se entrelaçavam... Do canto onde Emily estava, Paulo ouviu o som abrupto de um copo sendo colocado sobre a mesa com mais força do que o necessário. — Paulo — Aline sussurrou, inclinando-se para perto dele. — Ela está furiosa. Mas... também parece triste. Tem certeza disso? Por um momento, Paulo hesitou. Mas a mágoa era maior. — Tenho — mentiu. Aline suspirou suavemente e então Paulo ouviu o som inconfundível de um caderno sendo aberto, seguido pelo clique de uma caneta. — Vou anotar algumas coisas aqui — disse ela, ainda em voz alta. — Você quer participar? O coração de Paulo disparou. Era exatamente aquilo que ele havia desejado com Emily. O som da caneta deslizando sobre o papel era como música, um ritmo que ele ansiava acompanhar. Ele estendeu a mão, encontrando a de Aline. Seus dedos se entrelaçaram sobre o caderno, e ele sentiu o movimento da escrita através dela. Não conseguia entender as palavras — nunca conseguia quando era em tinta — mas sentia a emoção. Só que não era a emoção certa. Não era o que ele realmente queria. — Perfeito — murmurou Aline, e então, conforme planejado, ela se inclinou e seus lábios roçaram o canto da boca dele, quase o beijando. Paulo manteve o sorriso bobo que haviam ensaiado, mas por dentro algo se retorcia desconfortavelmente. E então ele ouviu. O som de uma cadeira sendo empurrada bruscamente para trás. Passos rápidos. E algo que soava perigosamente próximo de um soluço abafado. — Paulo — a voz de Aline estava diferente agora, preocupada. — Ela está saindo. Está... acho que está chorando. O sorriso de Paulo desapareceu instantaneamente. — O quê? — Ela levantou e saiu correndo. Paulo, ela estava chorando. O estômago dele afundou. Aquilo não era o que ele esperava. Emily deveria ficar furiosa, fazer uma cena, mostrar aquela intensidade possessiva que todos diziam que ela tinha. Não deveria... não deveria chorar. — Isso não estava no plano — murmurou ele, sentindo o arrependimento começar a se formar como um nó em sua garganta. — Paulo? A voz era diferente, feminina mas não era Aline. Paulo virou a cabeça na direção do som. — Marina? — reconheceu ele. A assistente de Emily. — Precisamos conversar — disse Marina, e havia uma urgência em sua voz que fez o estômago de Paulo se revirar ainda mais. — Agora. Aline soltou a mão dele. — Vá — sussurrou ela. — Acho que exageramos. Paulo se levantou, sentindo Marina tocar levemente seu braço para guiá-lo. Ela o levou para um canto mais reservado do salão, longe dos olhares curiosos. — O que você fez? — a voz de Marina tremia entre raiva e desespero. — Eu... eu só queria... — Paulo não conseguia encontrar as palavras. — Você sabe que ela rejeitou você naquele dia, certo? Quando você queria escrever com ela? — Sei — respondeu Paulo, a amargura voltando. — Ela me disse para ficar no meu lugar. — E você sabe por quê? — Marina suspirou pesadamente. — Ela está aterrorizada, Paulo. O último namorado dela disse que nenhum homem jamais a aguentaria. Que ela é intensa demais, possessiva demais. Ela acreditou nisso. Acreditou que não merece ser amada. Paulo sentiu como se tivesse levado um soco. — Eu não sabia... — Quando ela viu você querendo escrever com ela, ela percebeu o que significava. Ela já teve um funcionário deficiente visual antes, que fazia isso com a namorada. Ela sabia o que você queria. E ela quis dar isso a você, Paulo. Ela quis tanto... — a voz de Marina falhou. — Mas ela teve medo. Medo de se entregar e você fugir dela também. — Meu Deus — Paulo passou a mão pelo rosto. — O que eu fiz? — Você mostrou a ela exatamente o que ela estava perdendo. Mostrou que outra mulher pode ter o que ela negou a si mesma. E sabe o pior? Ela não tem direito de reclamar. Ela mesma te afastou. Então ela só pode... sofrer em silêncio. — Marina, eu... — Ela vai entrar em depressão profunda se alguém não fizer algo — disse Marina, com firmeza agora. — E esse alguém é você, Paulo. Você é o único que pode consertar isso. — Como? Ela me odeia. — Não, ela não odeia. Ela está apavorada. Há uma diferença. — Marina tirou algo do bolso. — Este é o endereço da cobertura dela. Vá até lá. Eu já avisei o porteiro para deixá-lo entrar. Paulo segurou o papel, sentindo a textura sob seus dedos, sabendo que não conseguiria lê-lo. — E o que eu digo a ela? — A verdade — respondeu Marina simplesmente. — Apenas a verdade. Paulo ficou parado ali por um longo momento, o barulho do jantar continuando ao fundo, enquanto seu mundo havia acabado de virar de cabeça para baixo. Ele havia conseguido o que queria — fazer Emily sentir ciúmes. Mas o preço tinha sido muito maior do que imaginava. E agora, de alguma forma, precisava encontrar coragem para fazer algo que sempre o aterrorizava. Precisava ser vulnerável com uma mulher que estava tão machucada quanto ele.