Gerar/Refazer com IA
Cena 10 — A aceitação de Aline
Ver texto atual
# CENA 10 — A aceitação de Aline Paulo segurava o celular com uma mistura de nervosismo e determinação. Seus dedos deslizaram pela tela até encontrar o nome que procurava: Aline Mendes. Haviam se conhecido anos atrás, numa conferência de tecnologia em São Paulo, e desde então mantinham contato esporádico. Ela era desenvolvedora, inteligente, bem-humorada, e tinha aquela personalidade vibrante que Paulo sempre admirou — mesmo que apenas como amiga. Respirou fundo antes de tocar no botão de chamada. — Paulo Gardinalli! — A voz dela soou animada do outro lado da linha. — Que surpresa boa! Quanto tempo! — Oi, Aline. Tudo bem? — Ele forçou um tom casual, mas sua voz traia a tensão. — Desculpa ligar assim de repente. — Imagina! Você sabe que adoro falar com você. Como vão as coisas por aí? Ainda em Lucélia? — Na verdade, não. Mudei para São Paulo há alguns meses. Estou trabalhando numa empresa nova. — Sério? Que legal! E como está sendo? Paulo hesitou. Como resumir tudo que havia acontecido? A demissão da Caixa, a mudança, a SouzaTech, Emily... — É... complicado — admitiu. — Mas, olha, estou ligando porque preciso de um favor. Um favor meio inusitado. — Agora você me deixou curiosa. — Havia diversão na voz de Aline. — Pode falar. — Tem um jantar da empresa na sexta-feira. Um evento formal, cada funcionário pode levar um acompanhante. — Ele fez uma pausa. — Você toparia ir comigo? Silêncio do outro lado. Por um momento, Paulo temeu ter cometido um erro. — Claro que eu toparia! — A resposta veio entusiasmada. — Mas me diz a verdade, Paulo Gardinalli. Que história é essa? Você nunca foi muito de eventos sociais. Paulo mordeu o lábio. Não havia como ser completamente honesto sem soar patético. — É que... tem uma situação. Com minha chefe. — Ah. — O tom de Aline mudou, ficando mais perspicaz. — Entendi. Deixa eu adivinhar: você está interessado nela e ela não está nem aí? — Mais ou menos. — Paulo sentiu o calor subir pelo pescoço. — Na verdade, ela me rejeitou de um jeito bem... direto. E agora preciso mostrar que não estou afetado. — Hmmm. — Aline fez uma pausa dramática. — E quem é essa chefe insensível? — Emily Souza. O silêncio que se seguiu foi carregado de significado. — Emily Souza? — A voz de Aline tinha mudado completamente. Havia algo afiado ali agora. — A dona da SouzaTech? — Sim. Você conhece? — Conheço. — Aline soltou uma risada curta, sem humor. — Tivemos um... desentendimento há um tempo. Numa conferência. Ela praticamente me humilhou na frente de investidores porque discordei de uma estratégia dela. Foi bem desagradável. Paulo sentiu uma pontada de culpa, mas também uma fagulha de esperança. — Então... você não gostaria de— — De ver a senhorita perfeita perder a compostura? — Aline completou, e agora havia um sorriso audível em sua voz. — Oh, Paulo. Você não faz ideia de quanto eu adoraria isso. — Aline, eu não quero que você— — Calma, calma. — Ela riu. — Não vou fazer nada absurdo. Mas me conta: qual é o plano exatamente? Paulo engoliu em seco. Era agora ou nunca. — Você se lembra daquela noite em que ficamos escrevendo juntos? Na conferência de São Paulo, há uns três anos? — Claro que lembro. — A voz de Aline ficou mais suave. — Passamos quatro horas conversando e você me ensinou aquela coisa de sentir a escrita. Foi uma das conversas mais interessantes que já tive. — Emily... ela gosta de escrever em cadernos durante as reuniões. E eu... — Ele parou, sentindo-se ridículo. — Eu queria sentir a escrita dela. Entrelaçar os dedos enquanto ela escrevia, sabe? Como fazíamos naquela noite. — E ela não deixou. — Pior. Ela disse que jamais faria isso por mim. Que eu deveria ficar no meu lugar. A respiração de Aline ficou mais pesada do outro lado da linha. — Que vaca. — Aline— — Não, Paulo. Isso foi cruel. — Havia indignação genuína em sua voz. — E você quer que ela veja você fazendo isso com outra pessoa. Comigo. — Eu sei que é infantil. Eu sei que é— — É perfeito. — Aline o interrompeu. — Vamos fazer o seguinte: vamos sentar perto da mesa dela. Vamos conversar alto sobre aquelas quatro horas que passamos escrevendo juntos. Você vai dar aquele seu sorriso bobo — sim, eu conheço esse sorriso. E então... — Então? — Então eu vou pegar meu caderno, começar a escrever, e você vai entrelaçar os dedos comigo. Como fazíamos antes. — Havia uma satisfação quase vingativa em sua voz. — E, só para dar um toque final... vou te beijar. Quase nos lábios. Só quase. O coração de Paulo disparou. — Aline, você não precisa— — Eu quero. — Ela estava claramente se divertindo agora. — Paulo, essa mulher te tratou mal. E me tratou mal também. Ela merece ver que não é a única pessoa importante no mundo. Que outras pessoas podem ter o que ela rejeitou. Paulo sabia que deveria se sentir mal. Que deveria recusar. Que aquilo era mesquinho e manipulador. Mas a dor da rejeição de Emily ainda ardia. As palavras dela — "jamais faria isso por você", "fique no seu lugar" — ecoavam em sua mente todas as noites. — Você tem certeza? — perguntou, a voz fraca. — Absoluta. — Aline estava decidida. — Que horas você me busca? — O jantar começa às oito. Posso te buscar às sete e meia? — Perfeito. E Paulo? — Sim? — Vista seu melhor terno. Vamos arrasar. Quando desligou, Paulo ficou sentado em silêncio no sofá de seu apartamento. Seu leitor de tela anunciou a hora: 22:47. Lá fora, São Paulo continuava seu burburinho noturno, indiferente aos pequenos dramas humanos. Ele deveria estar feliz. Tinha um plano. Tinha uma aliada. Ia mostrar para Emily que ela não tinha poder sobre ele. Então por que se sentia tão vazio? Paulo encostou a cabeça no sofá e deixou escapar um suspiro longo. A verdade era simples e dolorosa: ele não queria fazer Emily ter ciúmes. Ele queria que ela entrelaçasse os dedos com os dele. Queria ouvir a respiração dela mudar quando escrevesse. Queria conhecer o ritmo único de sua caligrafia, a pressão que ela aplicava no papel, as pausas que fazia entre as palavras. Queria Emily. Mas Emily não o queria. E se não podia ter o que realmente desejava, pelo menos teria a satisfação amarga de mostrar que não estava destruído. Que podia seguir em frente. Que outras pessoas o achavam interessante o suficiente para compartilhar aquela intimidade que ela havia negado. Era cruel? Talvez. Era justo? Provavelmente não. Mas era tudo que ele tinha. Paulo se levantou e caminhou até o quarto, seus passos seguros pelo apartamento que já conhecia de cor. Abriu o armário e passou as mãos pelas roupas penduradas até encontrar seu melhor terno — o azul-marinho que sua mãe sempre dizia que o deixava elegante. Sexta-feira. Faltavam apenas três dias. Três dias para se preparar para uma vingança que, no fundo do coração, ele sabia que não lhe traria nenhuma paz. Mas faria mesmo assim. Porque às vezes, quando estamos feridos, a única coisa que sabemos fazer é ferir de volta. Mesmo que isso nos destrua ainda mais no processo.